Carta de Flávio Bolsonaro: quem perdeu e não aceita o “não” das urnas
Dos EUA, o senador se disse “presidente eleito”, alegou fraude sem provas e depois recuou na palavra, mas não na acusação. O Brasil já viu esse filme
Resumo da notícia
- Há derrotas que se aceitam e derrotas que se negam.
- A acusação de Flávio se apoia na prorrogação da votação até as 19h e em supostos abusos do governo na campanha.
- Um detalhe chamou atenção.
- Na carta, Flávio agradece a Donald Trump e a Javier Milei pelo acolhimento.
Tópicos extraídos automaticamente do texto da reportagem.

Há derrotas que se aceitam e derrotas que se negam. Nesta quarta-feira (28), Flávio Bolsonaro (PL) escolheu a segunda opção. Em uma carta divulgada nas redes, o senador alegou fraude na eleição presidencial, se declarou “o verdadeiro presidente eleito do Brasil” e anunciou que vai liderar a oposição ao governo Lula a partir dos Estados Unidos, onde está com a família.
Prova, nenhuma. A carta não traz elementos que comprovem as alegações. E o resultado que ele contesta já foi reconhecido pelos presidentes do STF, do TSE, do Senado e da Câmara.
Golpe? Uma carta, sozinha, não derruba governo. Mas é assim que o caminho costuma começar: primeiro se desacredita a urna, depois se convoca a militância.

O roteiro de 2022, com novo protagonista
A acusação de Flávio se apoia na prorrogação da votação até as 19h e em supostos abusos do governo na campanha. Os números desmontam a tese. Segundo levantamento do g1, apenas 35.521 votos foram registrados depois das 17h, cerca de 0,8% da vantagem de Lula. E a prorrogação foi decidida pelo ministro Cristiano Zanin a pedido das campanhas dos dois candidatos, inclusive a dele.
Lula venceu com 64,2 milhões de votos e mais de 4 milhões de vantagem. Não é margem para dúvida. É margem para reconhecimento.
O mais grave é a memória curta. Em agosto, o próprio Flávio garantiu que respeitaria o resultado da eleição. Prometeu quando achava que ia ganhar. Rasgou a promessa quando perdeu. E faz isso sendo filho de um ex-presidente condenado por tentativa de golpe de Estado e preso desde 2025. Quem conhece essa história sabe exatamente onde esse discurso já terminou.
Recuou na palavra, não na acusação
Depois da repercussão, Flávio editou a carta. Trocou “presidente eleito” por “líder do Brasil”. Parece um recuo, mas não é.
A primeira versão foi divulgada pelo jornalista Paulo Figueiredo, aliado da família. Na nova, publicada pelo próprio senador, ele continua chamando seus adversários de “os criminosos que roubaram a eleição do Brasil”. Mudou o cargo que reivindica. A acusação ficou intacta.
É legítimo perguntar: qual das duas cartas representa o que ele realmente pensa? A primeira, escrita no calor, ou a segunda, revisada depois que alguém percebeu o tamanho do problema? Na minha leitura, a correção mostra que houve cálculo, não arrependimento.

O brasão
Um detalhe chamou atenção. A primeira versão da carta trazia o brasão antigo do país, com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”. O termo utilizado na carta foi o nome oficial do país durante o período republicano, de 1889 até 1968. A versão editada voltou ao brasão atual, com “República Federativa do Brasil”.
Pode ter sido descuido? Mas um homem que queria assumir a Presidência da República não pode ser descuidado com os símbolos nacionais. E, se não foi descuido, a mensagem é ainda pior: a de quem olha para trás, para um Brasil de outra Constituição, em vez de olhar para o Brasil que existe hoje.
“Não fugi”, diz quem saiu sem avisar
“Não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil”, escreveu o senador.
O trajeto conta outra história. Flávio deixou Brasília na terça-feira por terra, cruzou a fronteira com a Argentina e embarcou em um avião particular rumo ao Equador e depois aos EUA.
Ele diz que partiu por temer medidas judiciais como as que atingiram o pai. Mas ele mesmo reconhece que não havia mandado de prisão contra ele. O que existe são dois inquéritos no STF, e os passaportes foram cancelados depois que ele descumpriu a ordem do ministro Alexandre de Moraes de entregá-los.
Investigação não é condenação. Não é perseguição. É o funcionamento normal da Justiça, que vale para qualquer cidadão, inclusive para senadores. Transformar um inquérito em “exílio político” é vender ao eleitor uma narrativa que os fatos não sustentam.

Trump “não se meteu”?
Na carta, Flávio agradece a Donald Trump e a Javier Milei pelo acolhimento. Trump, por sua vez, disse que teria aprovado a entrada do senador nos EUA e garantiu que não tomou partido, porque conhece os dois.
No mesmo momento, porém, o presidente americano classificou a eleição brasileira como “muito estranha” e “terrível”. Fica a pergunta: quem diz não se envolver, mas abre as portas a um investigado com passaporte cancelado e lança dúvida sobre o resultado de outro país, está mesmo fora da disputa?
Soberania não se mede só por tanques e fronteiras. Também se mede pelo respeito ao voto de um povo.
E onde fica o TSE?
O Tribunal Superior Eleitoral é presidido por Kassio Nunes Marques, indicado ao STF por Jair Bolsonaro. Durante a campanha, Nunes Marques rebateu críticas de que teria favorecido Flávio e afirmou que a maioria de suas decisões foi confirmada pelo plenário.
Agora, diante de uma carta que acusa de fraude a eleição que o próprio tribunal conduziu, o silêncio não é opção. Quem organizou o pleito tem o dever de defendê-lo com clareza, antes que a narrativa de “perseguição” se espalhe sem resposta.
O que Flávio quer, de fato?
Quase 60 milhões de brasileiros votaram em Flávio Bolsonaro. Esses eleitores mereciam um líder de oposição que fiscalizasse o governo, propusesse alternativas e disputasse a próxima eleição. Recebem, em vez disso, uma carta que os convida a desconfiar da própria urna em que votaram.
A democracia brasileira já pagou caro pela recusa em aceitar um “não”. Cabe às instituições, e a cada eleitor, não deixar que essa conta seja cobrada de novo.
Confira a primeira versão da cartão, deletada após repercussão:



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