Lula faz 81 anos e chega ao 4º mandato: o que precisa mudar
Vitória histórica, Congresso mais à direita e mercado em alerta: o capital político de Lula é grande, mas o tempo e a margem de erro são curtos
Resumo da notícia
- Lula completa 81 anos nesta terça-feira (27), dois dias depois de uma virada histórica que lhe deu o quarto mandato na Presidência do Brasil.
- Os números impressionam.
- Se o voto popular deu a vitória a Lula, o Congresso deu um contrapeso.
- Lula tratou a idade de frente.
Tópicos extraídos automaticamente do texto da reportagem.

Lula completa 81 anos nesta terça-feira (27), dois dias depois de uma virada histórica que lhe deu o quarto mandato na Presidência do Brasil. A data carrega um simbolismo difícil de ignorar. Foi justamente no dia em que fazia 57 anos, em 27 de outubro de 2002, que ele venceu pela primeira vez, derrotando José Serra no segundo turno.
Vinte e quatro anos separam as duas comemorações. O Brasil mudou muito nesse intervalo, e Lula também. Passada a festa na Avenida Paulista, a pergunta que importa é outra: o jeito de governar vai mudar na mesma proporção que o país?
Lula 81 anos: uma vitória histórica, mas apertada
Os números impressionam. O petista recebeu 64.256.232 votos no domingo (25), a maior votação nominal já registrada por um candidato a presidente no Brasil. E chegou lá de trás: no primeiro turno, Flávio Bolsonaro (PL) terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula.
Só que a virada veio com margem curta. Com mais de 98% das seções totalizadas, Lula tinha 51,75% dos votos válidos, contra 48,25% do senador. Traduzindo: quase metade do eleitorado votou no projeto oposto. É um capital político enorme e, ao mesmo tempo, frágil.
O próprio presidente parece ter entendido o recado. “Essa eleição me ensinou muitas lições”, disse na noite da vitória. Resta saber quais lições serão transformadas em prática.
“Mudar o jeito de governar”: promessa ou retórica?
“Nós vamos mudar o jeito de governar este país”, prometeu Lula. A mudança mais concreta anunciada foi na comunicação. Ele disse que vai falar com os brasileiros diretamente, várias vezes ao dia, para explicar suas posições e medidas sem depender da interpretação de jornalistas.
Falar mais com a população é legítimo e, num tempo de redes sociais, até necessário. Mas há uma contradição aqui. Comunicação direta não substitui prestação de contas. Um governo que se explica apenas pelos próprios canais escolhe as perguntas que quer responder.
Outro ponto merece atenção. Lula ressaltou que, depois da eleição, sua responsabilidade é governar para toda a população, independentemente de preferência política. No mesmo discurso, porém, definiu a vitória como uma derrota do negacionismo e chamou o adversário de representante genuíno do “milicianismo” no país. Pacificar e acusar na mesma noite é um sinal de que o tom de campanha ainda não foi desligado.
Na agenda, as promessas são ambiciosas. Lula defendeu ensino em tempo integral até o ensino médio, a universalização do Pé-de-Meia e uma versão universitária do programa, além de maior participação federal na segurança pública e investimentos para atrair data centers ao país. A regulação e a tributação das big techs ocuparam lugar central na fala.

Um Congresso mais à direita do que nunca
Se o voto popular deu a vitória a Lula, o Congresso deu um contrapeso. O PL deve começar 2027 com 28 das 81 cadeiras do Senado, a maior bancada da Casa. Na Câmara, o partido terá 121 deputados, contra 88 da federação PT-PCdoB-PV.
Lula reconheceu que o Legislativo terá composição mais conservadora e disse que vai negociar para aprovar as propostas do Executivo. Esse é o ponto em que a experiência dele pesa a favor. Poucos políticos brasileiros sabem negociar como ele. A diferença é que, agora, a oposição tem tamanho suficiente para impor a pauta, e não apenas para resistir.
Como fica a economia no governo Lula 4
O primeiro recado veio da Bolsa. Na segunda-feira (26), o Ibovespa caiu 13,88%, aos 176.608 pontos, a maior perda desde março de 2020, e o dólar fechou a R$ 5,403. O circuit breaker, que interrompe os negócios em quedas acima de 10%, não era acionado desde 2020.
É preciso contexto. Parte dessa queda devolve uma euforia anterior: depois do primeiro turno, com Flávio na frente, o Ibovespa havia saltado 7,7% em um único dia. O mercado apostou em um resultado e errou.
Mas o desconforto tem fundamento. Em agosto, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,9% do PIB, a Selic está em 13,75% ao ano e o mercado projeta crescimento de apenas 1,32% em 2027. Segundo a economista Zeina Latif, cerca de 95% do orçamento da União já está comprometido com despesas obrigatórias. E chama atenção um silêncio: no discurso da vitória, Lula não tocou em ajuste das contas públicas.
Também não é caso de pânico. O economista Felipe Salto avalia que o quadro é de fragilidade fiscal, mas ainda longe de risco de solvência, já que o país tem reservas internacionais elevadas e pouca dívida externa. Para ele, o desafio é apresentar rapidamente um plano, com efeitos distribuídos ao longo dos quatro anos. Esse talvez seja o maior teste do novo mandato: mostrar, antes da posse, que a promessa social cabe no orçamento.

Idade, legado e o último mandato
Lula tratou a idade de frente. “Vou terminar esse mandato inteiraço, correndo mais do que qualquer um de vocês”, disse, ao afirmar que não buscará outro mandato. Somados os quatro governos, serão 16 anos no poder, o dobro de Fernando Henrique Cardoso.
Aqui está uma oportunidade rara. Um presidente que não disputará mais eleições pode tomar decisões impopulares sem medo da próxima urna. Pode, por exemplo, enfrentar o debate fiscal com mais coragem do que em mandatos anteriores.
Há também uma responsabilidade que nenhuma vitória resolve: a sucessão. Aos 81 anos, construir equipe forte, delegar e preparar novas lideranças deixa de ser escolha e passa a ser parte do próprio legado. Um projeto político que depende de uma só pessoa termina quando ela sai de cena.
Régua alta
“Vou fazer o melhor mandato que um presidente já fez na história deste país”, prometeu Lula. A régua é alta, e foi ele quem a colocou.
Os próximos sinais virão rápido: a escolha da equipe econômica, o primeiro plano para as contas públicas e a relação com o novo Congresso, que escolherá os presidentes da Câmara e do Senado em fevereiro de 2027, já sob a nova correlação de forças.
A festa da Paulista foi de Lula. O julgamento do quarto mandato será do brasileiro que paga juros altos, vive com medo da violência e quer saber se o país vai, enfim, voltar a crescer.
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